quarta-feira, 16 de julho de 2008

O Ateneu - (Raul Pompéia) - resumo



PERSONAGENS:

Sérgio – protagonista e narrador;

Aristarco – diretor do colégio (internato). É autoritário, egocêntrico e moralista;

Franco – sempre fora a vítima das brincadeiras de mau gosto dos outros;

Bento Alves – o misterioso e protetor;

Rabelo – o conselheiro;

Sanches - amigo, colega da classe.

Ema – mulher de Aristarco, substitui a mãe de todos os alunos;

Tendo por cenário um internato e por protagonizar um menino de onze anos, Sérgio, O Ateneu é tematizado pelo drama da solidão, do desajuste do indivíduo em relação ao meio.
A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem principal, Sérgio, já adulto. Não linearmente, ele mostra os dois anos em que viveu no internato que fora obrigado a ir pelo seu pai, e que servia de metáfora para a Monarquia o qual tinha como diretor Aristarco. São narrados episódios de suas amizades, seus colegas interferindo com ele, a tensão homossexual entre os alunos do internato, a falsidade de uns, a deformação de caráter de outros e a única pessoa que lhes ajudava no internato, Dona Ema, mulher de Aristarco, por quem tinha uma paixão platônica.
Essa reconstituição compreende uma descrição expressionista de pessoas e ambientes em que o narrador desnuda cruelmente os colegas, como por exemplo, Ribas, que canta como anjos, Franco, o eterno penitente, Barreto, um colega para quem o mal eram as fêmeas e que se aproxima de Sérgio com suas idéias obre inferno e perdição, os professores e o diretor, reduzindo-os a caricaturas grotescas, nas quais se percebe a intenção de deformar, como se Sérgio estivesse vingando-se do seu passado e de todos que faziam parte do Ateneu.
Quando a escola é incendiada no final da história por um aluno durante as férias, Ema foge. Sérgio presencia a cena pois estava convalescendo ainda na escola. Essa obra foi chamada pelo autor de “Crônica de Saudades” e ultrapassa a dimensão autobiográfica por causa de sua qualidade literária.

O Ateneu, Crônica de Saudades, estrutura-se através de “manchas de recordação”, ou seja, de uma sucessão de episódios, cujo fio condutor é a memória do personagem-narrador. Não há propriamente um enredo. Relatamos, a seguir alguns episódios:
Com onze anos, o menino Sérgio (que narra a história em primeira pessoa) entra para o “Ateneu”, famoso colégio interno dirigido pelo Dr. Aristarco Argolô de Ramos. Principia falando de Aristarco:
“um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha; a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a influência dos estudantes ricos para seu instituto. De fato, os educandos do “Ateneu” “significavam a fina flor da mocidade brasileira”.
O pai de Sérgio, ao deixá-lo à porta do “Ateneu”, disse-lhe:
“Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”.
E o narrador acrescenta:
“Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico...”
Sobre os companheiros de classe, diz:
“eram cerca de vinte: uma variedade de tipos que me divertia: o Gualtério, o Nascimento, o Álvares, o Mânlio, o Almeidinha, o Mauríllio, o Negrão, o Batista Carlos, o Cruz, o Sanches e o resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo de sala.”
Nos primeiros dias, Sérgio atravessa por um período de ajustamento, e conversando com o Rebelo, um veterano, este assim opina sobre os companheiros:
“Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido, uma mentira em cada dente, um vicio em cada polegada de pele. Fiem-se neles... São servis, traidores, brutais, adulões. Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, emprestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da véspera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos há de aprender o que são... Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da franqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiros e afetuosos, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo. Comece por não admitir protetores.”
Após a fase inicial de ajustamento, Sérgio vai-se habituando à vida do internato. Interessa-se pelos estudos, graças à ajuda de Sanches. Mas o Sanches estava mal intencionado: seu plano era perverter Sérgio. E, como não consegue, passa a persegui-lo, como “vigilante” que era. O resultado é que Sérgio, de bom aluno, passa a figurar no “livro de notas”, um trágico livro em que cada professor anotava as supostas indisciplinas e que o diretor lia todos os dias perante os alunos para isso reunidos, tornando públicas as atitudes faltosas, as quais eram castigadas rigorosamente. Sérgio entra em perigosa fase de desânimo, tornando-se religioso. Nessa fase tem amizade com Franco, um pobre-diabo que vivia desprezado por todos, o figurava permanentemente no “livro de notas”. Certa vez, Franco para vingar-se dos colegas que haviam maltratado, joga cacos de vidro na piscina. (Sérgio ajuda nesta tarefa.). Felizmente as intenções maldosas de Franco são por acaso frustradas, pois houve a limpeza da piscina antes que os alunos banhassem; mas o episódio fez com que Sérgio, arrependido, deixasse a fase de “misticismo” e passasse a encarar a vida de outra maneira: conta a seu pai o que realmente era o “Ateneu” e resolve, daí por diante, tomar atitudes de pessoa independente, enfrentando inclusive a autoridade despótica e interesseira de Aristarco.
E o narrador: “esse foi o caráter que mantive, depois de tão várias oscilações.”
Nesta altura, introduz novo personagem: O Nearco, um ginasta de grande valor, que acabara de entrar para o “Ateneu”. Embora excelente nos exercícios de ginástica, foi como orador do grêmio literário do colégio que Nearco se destacou. Às reuniões desse órgão estudantil, chamado “Grêmio Amor ao Saber”, Sérgio comparecia como simples assistente. Como o grêmio possuía farta biblioteca, Sérgio começa a freqüentá-la, então que se deu um fato estranho: Freqüentando a biblioteca, Sérgio travou amizade com o Bento Alves, um aluno mais velho que trabalhava como bibliotecário. Uma amizade que logo degenerou, por força das más intenções do Bento Alves. Logo os colegas começaram a dizer piadas e a fazer comentários:
“A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles”.
Certo dia, o diretor se dirigiu aos alunos:
“Tenho a alma triste, senhores. A imoralidade entrou nessa casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à evidência...”.
Narra então, o diretor, um caso de “amor” entre dois alunos, inclusive faz referência a uma carta de “amor” em que um dos protagonistas convida o outro para um encontro no jardim e assina: Cândida ( o aluno se chamava Cândido)... E o diretor termina a primeira parte do discurso com a frase:
“Há mulheres no “Ateneu”, meus senhores.”
E o desfecho acontece:
“Aristarco soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo todo poderoso. E, sem exórdio: Levante-se Sr. Cândido Lima! Apresento-lhes, meus senhores, a Sra. Dona Cândida – acrescentou com ironia desanimada. Para o meio da casa! Curve-se diante dos seus colegas. Cândido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difíceis de indolência e enfado. Atravessou devagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade pública. –Levanto-se, Sr. Emílio Tourinho... Este é o cúmplice, meus senhores. Tourinho era um pouco mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã, mas era com efeito o amante. –Venha ajoelhar-se com o companheiro. –Agora os auxiliares. E o chamado do diretor, foram deixando os lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais culpados. Prostrados os doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquilo em ritual desconhecido de noivado à espera da bênção para o casal frente. Em vez de bênção chovia a cólera.”
E prossegue o autor:
“Conduzidos pelos inspetores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do diretor, onde deviam se literalmente seviciados, segundo a praxe da justiça de arbítrio. Consta que houve mesmo pancada de rijo.”
Sérgio teve, após o episódio com Bento Alves, um amigo “verdadeiro”, Egbert.
Tendo sido transferido para o dormitório dos maiores, Sérgio começa a viver em ambiente mais masculino. Narra os hábitos dos mais velhos, as saídas noturnas pelas janelas, etc.
Conta Sérgio o episódio da morte do colega Franco, vítima de péssima educação que havia recebido em casa e igualmente vítima dos maus-tratos sofridos no “Ateneu”.
E termina o livro com o Incêndio que destrói o “Ateneu”, incêndio, ao que se diz, “propositadamente lançado pelo Américo”, um aluno revoltado, que fora colocado à força pelo pai no internato.
Conclui o autor:
“Aqui suspende a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo e a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”


(Apostila 19 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)
Texto Completo das obras indicadas para o vestibular da UEPB
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Resumo - O Ateneu - Raul Pompéia

Surgido pela primeira vez em 1888, no Gazeta de Notícias, O Ateneu é um dos romances mais curiosos da Literatura Brasileira, pois escapa a qualquer classificação rígida de periodização literária.A data de sua publicação o coloca no Realismo. De fato, possui fortes afinidades com tal escola, já que apresenta uma característica marcante desse momento estético: a preocupação em criticar a sociedade num tom perpassado de pessimismo. No entanto, há inúmeros desvios que o impedem de ser um romance puramente realista.Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a obra é memorialista. Seu narrador, Sérgio, apresenta suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu. Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada objetividade e imparcialidade do Realismo-Naturalismo.Além disso, não se deve esquecer que Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro. Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.Reforça ainda mais essa subjetividade a forte aproximação que O Ateneu estabelece com outra escola literária, o Impressionismo. De fato, obedecendo a esse estilo, não há o relato exato e documental de fatos do passado. Raul Pompéia encaminha-se inúmeras vezes para a fixação de um momento, de um clima, de uma atmosfera perdida no passado. Ao invés de contar uma história, muitas vezes preocupa-se em relatar uma seqüência de impressões, sensações subjetivas que marcaram o narrador a ponto de atravessar o tempo e serem os elementos mais nítidos de sua memória.No entanto, quando se mostra finca nos postulados realistas, o romance mostra um poder de crítica bastante eficaz e tudo de forma criativa, pois se faz por meio de um jogo entre o microcosmo (escola) e o macrocosmo (sociedade). Ou seja, a escola é um reflexo da sociedade, bastando para o autor, portanto, para criticar esta, apenas descrever as relações que se estabelecem naquela.O ataque mais chamativo se estabelece em relação ao sistema educacional, representado na figura do Dr. Aristarco, diretor e dono do colégio. Além de ele se mostrar alguém bastante vaidoso, egocêntrico e autoritário, dotado de uma linguagem altissonante e retórica (já que a moralidade e a firmeza de caráter que anuncia em sua escola de fato não se realizam), chama a atenção a confusão que estabelece entre escola e empresa. Magistral é o primeiro capítulo na realização dessa crítica. Vê-se um narrador que, abusando da ironia, apresenta Aristarco preocupado em pintar o colégio como um negociante preocupado com as aparências de sua venda ou mercearia. Não é à toa que o vocabulário usado nesses trechos é típico de estabelecimentos comerciais. Ademais, o tratamento dado aos alunos é diferenciado muitas vezes pelo poder econômico. Além disso, avassaladora é a descrição do diretor dedicando parte do dia ao livro de contabilidade da escola. Note, por fim, como o vocabulário pomposo e retumbante vai-se opor à decadência que grassa na escola, o que reforça a hipocrisia dominante não só no colégio, mas na sociedade, em que o ideal defendido mostra-se gritantemente diferente do real praticado. Pode-se ainda observar os métodos antiquados de pedagogia (apesar da propaganda em contrário), baseados na humilhação pública.Ainda dentro do Realismo, há que se notar no romance sua vinculação ao Naturalismo (um subconjunto da literatura realista), principalmente na utilização de elementos que denotam um apego exagerado à sexualização. Destaca-se, numa visão que em muito lembra a teoria freudiana, o jogo entre implícito e explícito, declarado e escondido, desejado e reprimido, e principalmente entre masculino e feminino que muitas vezes resvala no homossexualismo. Nos primeiros dias de aula Sérgio recebe de seu colega de sala, Rebelo, o conselho de que não deveria aceitar a proteção de ninguém. É que a escola estava dividida entre os meninos que protegiam, dotados, pois, de masculinidade, e os meninos protegidos, frágeis, passivos e, assim, dotados do que era entendido, no contexto do romance, como feminilidade. Apesar de avisado, o protagonista não consegue manter por muito tempo a sua disposição por se impor no meio estudantil (há aqui um outro elemento realista-naturalista. A escola é apresentada como um meio hostil, em que os estudantes vivem constantes agressões entre si, tudo para a conquista de espaço e respeito. É como se fosse uma representação das forças que dominam em nossa sociedade), buscando logo a cômoda proteção de alguém mais velho. Surge então Sanches. O problema é que esse rapaz, descrito como baboso e fedido, demonstra outras intenções. Se ajuda Sérgio na recuperação de seu desempenho escolar, esmerando-se em aulas particulares, exagera nas demonstrações afetivas, chegando até a pedir que o protagonista sentasse em seu joelho.Não se deve deixar de notar aqui mais uma crítica à hipocrisia. Sancho era um vigilante, aluno que tinha a função de zelar pelo comportamento dos outros. Além disso, era dos mais veementes defensores da “moral e dos bons costumes”. E justamente ele assediava Sérgio, com intenções nada benéficas. É mais um choque que servirá para o duro amadurecimento do protagonista – no sentido de despir-se dos idealismos do primeiro capítulo e aceitar as decepções e desencantos como naturais de nossa existência.Ainda dentro do aspecto freudiano está o complexo de Édipo, apresentado numa forma mascarada. Tal se manifesta pela relação de antipatia que se estabelece entre os alunos do Ateneu e o diretor, que acaba se transformando na figura de um pai. Dessa forma, sua esposa, D. Ema, por ser carinhosa e muito protetora, acaba assumindo a função de mãe dos estudantes. Essa afetividade acaba até se manifestando em Sérgio, principalmente no final do romance, quando, doente, é cuidado por ela.Somando-se aos elementos realistas, naturalistas e impressionistas, chamam a atenção em O Ateneu as recaídas que o autor tem no rebuscamento da linguagem, com subordinação exagerada e inversões desnecessárias, o que lembra um pouco o Parnasianismo. Note como tal se manifesta no texto abaixo, início do capítulo III: Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudência, enquanto aplicavam-se os outros à peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiográficos, para a oportuna confecção de mais uma infância célebre, certo não registraria, entre os meus episódios de predestinado, o caso banal da natação, de conseqüências, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.Ou então na famosa abertura do romance “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso."Não há como não enxergar positivamente a elaboração muitas vezes poética da linguagem no romance, com um intenso emprego de metáforas e outras figuras de linguagem. No entanto, o autor por vezes perde a mão, dificultando desnecessariamente a imediata compreensão do seu conteúdo.Existe também em O Ateneu aspectos do Expressionismo, na medida em que seu traço, principalmente nas descrições, distorce a realidade por meio de caricaturas grotescas, que resvalam pelo exagero. Note como isso se manifesta na descrição que Sérgio faz dos seus colegas de sala. ”Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio — palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e intensa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente (...)”Em suma, a riqueza do estilo de Raul Pompéia, apresentando elementos realistas, naturalistas, parnasianistas, impressionistas e expressionistas, permite com que sua obra O Ateneu fuja a toda e qualquer padronização literária simplista. Torna-se, pois, um dos momentos mais brilhantes da Literatura Brasileira no século XIX. EQUIPE FERANET21
Texto Completo das obras indicadas para o vestibular da UEPB

Resumo - O Vôo Da Guará Vermelha


Autor : Valéria Rezende
Resumo de : Lara Mer
O Vôo da Guará Vermelha traz como personagens centrais Rosálio e Irene. Rosálio é pedreiro, Irene é prostituta. Os dois se encontram quase que por acaso e o que se impõe a parir daí é a beleza como celebram a vida porque o fazem de forma terna, simples e profunda. Rosálio, carrega nas mãos alguns livros, que o acompanham em suas andanças. Rodou o mundo, impulsionado pelo desejo de aprender a ler, a ler os livros que trazia nas mãos. Buscou errante onde parecia óbvio, deu voltas e voltas até que encontrou Irene. Irene viveu no passado, uma história de amor e tragédia. Do amor que prende, que mata que deixa saudade e culpa. Da espera do jovem que promete ir buscá-la. Embaixo de seu colchão de trabalho guarda um caderno em branco e um lápis a espera das palavras que contariam as histórias trazidas por Rosálio. Com Irene, Rosálio aprende a ler da forma mais bela e digna que é aprender ensinando, receber, dando. O livro mostra a imensa capacidade do espírito de extrapolar o mundo físico, ainda que o cenário se descortine em uma realidade material que nega o vôo. Irene vive finalmente o tão sonhado amor nos braços de Rosalvo e parte a suavemente nas asasde um passarinho. Rosálio ao buscar a palavra, busca a sua consciência e ao encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se descortina num arco-íris de cores da consciência. Rosalvo, o contador de histórias, com o seu instrumento de trabalho e vida eterniza a si mesmo assim como o faz a sultana de Mil e Uma Noites.
Comentário : Assessoria de Comunicação e Imprensa – UNICAMP
O Vôo da Guará Vermelha celebra a vida, sem pieguice
O Vôo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende, é um livro sóbrio e envolvente. Um hino à vida, à beleza e ao amor, completamente desprovido da pieguice em que geralmente se banham romances que fazem desas matérias inconsúteis (amor, beleza e vida) a carpintaria da história que contam. Um belo livro! O enredo é simples: um homem e uma mulher se encontram nos extremos da vida e se juntam. Extremos de pobreza, de solidão e de doença, fundidos, se transfiguram. Transfigurados, parecem dar sentido à vida e até à morte. Pois embora celebre a vida, o enredo é entremeado de mortes, de desencontros, de sofrimentos. Seu enredo é entremeado sobretudo de histórias, que se destacam graficamente da fala do narrador, elaborando os entremeios. Nos títulos dos capítulos, engenhosamente dispostos na frente/verso das páginas, mencionam-se cores que se acentuam com o desenrolar da trama e que com ela dialogam: Cinzento e Encarnado, Ocre e Rosa, Verde e Ouro. Pairando na história, sabores e cheiros que arrematam o forte substrato sensorial do texto, onde é recorrente a imagem de um sagüi e de uma guará, lembranças fundamentais na vida das personagens centrais. Ela é Irene, ele é Rosálio da Conceição. Ela é prostituta, ele é servente de pedreiro. As humildes profissões deles, no entanto, são quase irrelevantes. Vivem ambos uma vida cinzenta e áspera como as pedras com que Rosálio marca – no início de sua trajetória – o itinerário pela cidade inóspita, mergulhada num silêncio estéril e letal. A história se narra pela boca de um narrador sofisticado, que ora empresta a voz para suas personagens, ora fala delas em terceira pessoa. Sempre de olho no leitor, a voz que narra não poupa artimanhas para envolver esta instável figura – nós, leitores! – em sua solidariedade para com Irene e Rosálio. Filho de mãe solteira, Rosálio começa por ter de adotar um nome: era conhecido como Nem Ninguém, nome sugestivo da negatividade quase absoluta de sua existência; depois passa a ser Curumim e, finalmente, Rosálio da Conceição na documentação que lhe dá existência civil. Esta invenção de um nome para si mesmo é o primeiro gesto pelo qual Rosálio começa a construir-se como sujeito de sua própria história. Esta história cifra-se em sua incansável busca por alguém que o ensine a ler os livros que herdou do falecido Bugre, índio desgarrado que terminou de criá-lo, depois de ser por ele salvo de morrer de febre, fome e sede. Os caminhos do aprendizado são tortuosos e cheios de curvas: com o protagonista, o leitor perambula por madeireiras, garimpos, canteiros da construção civil. Finalmente Rosálio se encontra com Irene. Irene é uma prostituta barata: doente e envelhecida, mal consegue os clientes necessários para o dinheiro que precisa levar semanalmente para a velha que lhe cria o filho. Embaixo do colchão deformado, um caderno e um lápis aguardam a história que ela acredita que um dia vai escrever. No passado, Romualdo,um grande amor desaparecido. E no futuro muito próximo, a morte inevitável por doença terminal. Finalmente Irene se encontra com Rosálio. Aos poucos, linguagem, escrita, livros, papéis, lápis e histórias de boca e de leitura vão crescendo no enredo, construindo o ponto de encontro dos protagonistas. Daí para frente, multiplicam-se e ficam cada vez mais encorpadas as formas de linguagem de que se valem as personagens. Aliás, a linguagem e os diálogos que ela engendra representam, talvez, a idéia fundadora e a tese do livro, se é que se pode falar de tese a propósito de um livro sutil como O Vôo da Guará Vermelha. Rosálio aprende a ler com Irene e juntos, na cama velha e estreita, decifram as letras dos livros herdados de Bugre. No caderno de Irene, ela registra a lápis as histórias que Rosálio conta. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. E que por isso podem alçar vôo para o azul sem fim, bela metáfora-título do último capítulo do livro. O leitor, ao fechar o livro, talvez tenha olhos e ouvidos mais abertos para o mar de histórias que se desentranham da história. No caso deste livro, da história anônima deste País de Rosálios e de Irenes e que um Poetinha, um dia, chamou de Pátria minha, tão pobrinha...Marisa Lajolo é professora titular do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp) e autora, entre outros títulos, de A Formação da Leitura no Brasil
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Resumo 1 - MORTE E VIDA SEVERINA

(Emília Amaral* )

Contexto histórico cultural

Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o otimismo tomou conta do mundo, e uma nova etapa de desenvolvimento pacífico parecia se aproximar. Os mais céticos, contudo, se lembravam da década de 20, após a Primeira Guerra: as mesmas esperanças tinham surgido, desfeitas pelo conflito de 1939. Assim, não se mostravam tão crédulos quanto à duração da nova era de tranqüilidade que se anunciava.
De fato, após a Segunda Guerra, o cenário político do planeta se modificou. Duas potências surgiram vitoriosas, os Estados Unidos e a União Soviética, destronando do centro decisório antigos ocupantes, como: Inglaterra e França, e aparecendo como os novos donos do mundo. Representantes de regimes sociais e políticos antagônicos, o Capitalismo e o Comunismo, passaram a disputar áreas de influência pelo mundo inteiro. Essa disputa recebeu o nome de Guerra Fria.
As duas superpotências se intrometiam nas lutas internas das regiões disputadas, como Coréia e Vietnã, fornecendo armas a uma das facções, com objetivos políticos. Com isso, essas regiões acabaram se transformando em campos de teste para armas avançadas, produzidas nos grandes centros tecnológicos.
Neste quadro geral, era impossível para qualquer país sustentar uma posição de neutralidade. A desobediência às regras da esfera de influência americano-capitalista, ou russo-comunista levava a punições severas no plano comercial, e mesmo à invasão pura e simples. Esta polarização ideológica impedia o surgimento de qualquer opção política aos modelos já estabelecidos.
Não era estranho ao mundo a coexistência ameaçadora de nações fortes e inimigas. Mas, naquele momento, um dado novo modificava os sentimentos que essa coexistência provocava: a bomba atômica. Laçada pelos americanos pela primeira vez no Japão em 1945, vitimando milhares de pessoas, funcionou como um recado aos planos expansionistas dos russos. Estes logo alcançaram a tecnologia atômica e a guerra nuclear passou a ser uma ameaça bastante palpável. Se acontecesse a terceira guerra mundial, o duvidoso consolo que todos tinham era o de que certamente seria a última.
No plano internacional, o ano de 1945 indicou uma nova era de esperanças, com o fim da Segunda Guerra. Também no Brasil, este ano marcou o término da ditadura de Vargas, abrindo perspectiva para um período democrático na vida política nacional. O fato do presidente eleito no ano seguinte ter sido Eurico Gaspar Dutra, que tinha sido ministro do governo Vargas, mostrou que o ditador deposto não estaria completamente ausente do cenário político.
Esta impressão se comprovou quando, nas eleições seguintes Getúlio concorreu, e ganhou. O ex-ditador voltava ao poder agora eleito democraticamente. A classe média intelectualizada temia um novo golpe de estado como o já penetrado por Vargas em 1937, e alguns de seus setores passaram a criticar as atitudes dúbias do presidente. A frustrada tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda, que fazia oposição aberta ao governo, acabou vitimando um major da Aeronáutica, e o governo se viu na obrigação de apurar os fatos. Todos os indícios levavam ao governo federal, e a pressão para uma renúncia voltou a assombrar a carreira de Getúlio. Em agosto de 1954, Vargas se suicidou.
Apesar do clima tenso que sucedeu ao suicídio, a normalidade democrática acabou por se instalar, e novas eleições foram convocadas. O presidente eleito, Juscelino Kubitschek, apareceu como solução modernizadora para o atraso brasileiro. Ele prometia realizar obras de "cinqüenta anos em cinco" para acelerar o nosso progresso. Um dos seus atos mais relevantes foi a transferência da capital, do Rio de Janeiro para o interior do país, em Brasília, cidade planejada e construída durante seu governo.
Sucedendo Juscelino, assumiu a presidência Jânio Quadros, em 1961. Contudo, depois de poucos meses de uma administração medíocre, ele renunciou, por motivos até hoje obscuros. O vice-presidente João Goulart não contava com o apoio das Forças Armadas. Os militares acreditavam que Goulart entregaria o país ao comunismo do qual era simpatizante e tentaram impedir-lhe a posse. Firmou-se um acordo político que criou o Parlamentarismo. Este foi desfeito pelo presidente, depois de um plebiscito que indicou a insatisfação popular com o novo modelo. As Forças Armadas passaram a arquitetar a deposição do presidente, o que de fato aconteceu com o golpe de estado de 1964.
Durante a década de 50, a arte brasileira se beneficiou do estado de relativa democracia vivido pelo país. Pesquisas formais indicavam caminhos novos para todos os setores artísticos. A literatura, a música, a pintura, a arquitetura, o cinema, o teatro, passavam por momento de renovação estilística. Essa renovação incluía a vertente política da arte. A União Nacional dos Estudantes (UNE) criou os Centros Populares de Cultura (CPC), que buscavam formas de comunicação artística com as massas, realizando apresentações de música e teatro em portas de fábricas e sedes de ligas camponesas.
Em literatura, surgiu o período denominado de terceiro tempo do Modernismo. Ele se caracterizou por uma retomada das preocupações formais que tinham marcado a primeira geração modernista. A palavra ganhou importância, assumida como centro da expressão estética. A reflexão em torno da arte (metalinguagem) alcançou níveis de elaboração bastante altos, em virtude do clima de discussão que se instalava no país.
O experimentalismo, isto é, a busca de novas formas de elaboração da linguagem literária, colocou a literatura brasileira em um patamar bastante semelhante ao de outras nações do mundo. Na poesia, a chamada "geração de 45" (grupo de poetas do terceiro tempo) tentou aliar os avanços modernistas com uma tonalidade clássica.
A preocupação com os destinos da sociedade perdeu o tom localista e regional que tinha tido nas décadas de 30 e 40. A iminência de um conflito nuclear que poderia dizimar a espécie humana fez com que todos passassem a se preocupar com a humanidade como um todo. O pessimismo dominou as concepções filosóficas do período. A ficção se voltava cada vez mais para o interior do ser humano, tentando encontrar ali a chave para a compreensão dos conflitos sociais. João Cabral de Melo Neto foi o principal representante da geração 45. Como outros poetas dessa época, apresentava uma grande preocupação com a construção do poema e com sua forma visual, insistindo na composição de métrica regular. No entanto, ele se destacou pela qualidade de sua poesia. Utilizando-se de uma expressão sintética, fugindo a qualquer tipo de derramamento ou sentimentalidade, João Cabral conseguiu à palavra poética a contundência da pedra. No poema dramático Morte e vida severina, a dureza da expressão corresponde formalmente às dificuldades e desalentos da história do retirante que aperte em direção ao litoral em busca de vida, e só encontra morte pelo caminho. O subtítulo do poema, auto de natal pernambucano, confirma a esperança do título no advento de uma nova vida, que represente a redenção do povo nordestino.
Fernando Marcílio
Morte e Vida Severina - Enredo
Publicada pela primeira vez em 1954 e encenada com grande sucesso em inúmeros palcos do Brasil e de outros países, esta obra, de João Cabral de Melo Neto, estrutura-se na forma de auto, peça de origem medieval e popular.
Além da grande sonoridade provocada pela predominância de versos em redondilha maior (verso de 7 sílabas poéticas, também pertencente à tradição medieval) de rimas sem um esquema regular mas constantes, de repetições de palavras e de versos inteiros. Morte e vida severina prende a atenção do leitor-ouvinte por combinar simplicidade e concentração, fortes imagens visuais e auditivas com uma linguagem muito próxima do registro oral.
Nela, o autor tematiza o itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência, devido à seca e às precárias se não insustentáveis condições de vida, para a esmagadora maioria da população.
A obra possui 18 trechos ao longo dos quais Severino, o retirante, primeiro apresenta-se ao leitor para em seguida ir relatando, com o auxílio de outras vozes, outros personagens encontrados na travessia, as etapas de que ela se compõe até chegar no Recife, onde o rio se encontra com o mar... Ora dialogando individualmente com ele, ora funcionando como um coro, tais vozes dão mobilidade aos trechos e ressoam de modo a contagiar os que seguem as pegadas do protagonista, explicitadas por títulos que resumem os seus movimentos principais, de forma semelhante às titulações dos capítulos dos romances medievais.
Para facilitar o entendimento do enredo de Morte e vida severina, vamos dividi-lo em duas partes: a primeira compreendendo dos trechos 1 ao 9, e que consiste na viagem da Paraíba ao Recife; e a segunda compreendendo dos trechos 10 ao 18, nos quais aparecem as experiências vividas pelo retirante na cidade grande.
1ª Parte - Do interior da Paraíba ao Recife: a busca da vida x a sucessão de mortes.
Antes de narrar a história de sua vida, Severino, cujo nome de próprio se tornou comum (elemento que estudaremos na seção Personagens), identifica-se ao leitor no trecho 1 - "O retirante explica ao leitor quem é e a que vai" - como personificação de um tipo humano e brasileiro: o oprimido socialmente, o retirante cuja vida é determinada pelas desigualdades econômicas que se mantêm irreparáveis.
Mas para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra
Nas etapas desta emigração o que vemos através de seus sonhos, é sempre a morte interrompendo a vida.
No 2º trecho, por exemplo, intitulado Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não', há um diálogo entre o Severino-retirante e os carregadores daquele corpo, o corpo do Severino-lavrador.
Aqui se alternam quartetos de versos com 7 e 4 sílabas poéticas, e se repetem no 2º verso de cada quarteto as expressões "irmãos das almas" (quando a fala é de Severino) e "irmão das almas" (quando a fala é dos carregadores do corpo), formando uma espécie de refrão, de ladainha, de coro, que fortalecem a dramaticidade e o lirismo de muitas partes do texto.
O diálogo nos informa que Severino-lavrador morreu "de morte matada", assassinado à bala, numa emboscada, por "Ter uns hectares de terra.../ de pedra e areia lavada / que cultivava". Às perguntas de Severino-retirante sobre quem o emboscou e que roças "ele podia plantar / na pedra avara", e também sobre o por que o fizeram as respostas são: "- Ali é difícil dizer / irmão das almas. / Sempre há uma bala voando / desocupada", "- Nos magros lábios de areia, irmão das almas, dos intervalos das pedras, / plantava palha" e "- Queria mais espalhar-se / irmão das almas, / queria voar mais livre / essa ave-bala". Vemos assim, as imagens da "ave-bala" e dos "magro lábios de areia", tanto a impunidade do crime quanto a estreiteza do pedaço de terra que o deflagra:
"- Tinha somente dez quadras, / irmão das almas, / todas nos ombros da serra, "nenhuma várzea"...
Severino retirante se oferece para ajudar a levar o morto, o que permite que m dos condutores possa voltar para casa. Uma fala final deste trecho exemplifica a ironia com que é retratada a morte, de forma crescente à medida que aumenta o número de cadáveres: "- Mais sorte tem o defunto, / irmãos das almas, / pois já não fará na volta / a caminhada".
No 3º trecho - O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão - as imagens das vilas e cidades por onde Severino-retirante vai passar com um rosário, e da estrada como uma linha, enriquecem-se com a imagem do Capibaribe. O rio-guia, identificado como o homem do nordeste, tem uma sina a cumprir, mas no verão a seca o interrompe, e ele se transforma em "pernas que não caminham...
Entretanto, o som de uma categoria orienta o viajante, que encontra, ao segui-la, o segundo defunto - trecho 4; Na casa a que o retirante chega estão cantando as excelências para um defunto, enquanto um homem, ao lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores. Nos trechos 5 e 6, e nos trechos 7 e 8, mais duas interrupções ocorrem na travessia do retirante. A primeira (referente aos trechos 5 - Cansado da viagem, o retirante pensa em interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho onde se encontra e 6 - Dirige-se à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá) decorre do cansaço de Severino. Perante a sucessão de mortes que testemunha vontade de, como o rio, "interromper sua linha", permanecer onde está. Vê, então, uma mulher na janela que lhe parece "remediada" e resolve perguntar-lhe por trabalho. O diálogo entre o protagonista e a mulher faz com que primeiro, respondendo às perguntas dela, enumere os ofícios que já teve (lavrador, vaqueiro, moedor de cana em engenhos, "suportar o sol" e, "havendo ou não (trabalho) trabalhar"), enquanto a mulher indaga se sabe "benditos rezar, cantar excelências, defuntos encomendar..." Trata-se de uma encomendadora de mortos, que "se soubesse rezar ou mesmo cantar" lhe proporia sociedade, "que a freguesia bem dá".
O diálogo então se inverte, Severino quer saber "como a senhora, comadre, pode manter seu lar" e ela, rezadora titular de toda a região, responde-lhe: "- Como aqui a morte é tanta, / só é possível trabalhar / nessas profissões que fazem / da morte ofício ou bazar'. Enumera por sua vez os "profissionais da morte" - farmacêuticos, coveiros, "doutor de anel no anular"- denominado-os "retirantes às avessas", isto é, pessoas que sobem do mar para o sertão e cultivam os "roçados da morte", os quais ironicamente "nem é preciso esperar / pela colheita: recebe-se na hora mesma de semear.."
Nos trechos 7 - o retirante chega à zona da mata, que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem e 8 - Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levam ao cemitério - a chegada a uma terra "mais fácil, doce e rica" enche de esperanças o coração do retirante.
Mas, em vez de gente ele vê apenas, numa várzea, um bangüê velho em ruína, o que o leva a conclusões apressadas: "Por onde andará a gente / que tantas canas cultiva? / Feriando: que nesta terra / tão fácil, tão doce e rica, / não é preciso trabalhar / todas as horas do dia, / os dias todos do mês, / os meses todos da vida..."
Tais conclusões são desmentidas no trecho 8, um dos mais conhecidos do texto, no qual o coro dos amigos do morto é uma forma de condenar, agora mais concentradamente, o que já vinha sendo denunciado desde o início; a desigualdade social, o extremo desamparo dos pobres perante o latifúndio, o coronelismo, as grandes oligarquias.
Os versos dirigem-se ao morto, cuja cova "é a parte que te cabe / neste latifúndio, é a terra que querias / ver dividida", é onde "estarás mais ancho / que estavas no mundo", é onde "mais que no mundo / te sentirás largo..."
Assim, o trabalho exercido com justiça e dignidade associa-se com a terra de que, "além de senhor / será homem de eito e trator (...). Serás semente, adubo, colheita" numa terra que "Também te abriga e te veste: / embora com o brim do nordeste".
Esta enumeração de imagens acaba por identificar o homem morto com a terra onde deveria trabalhar, de onde precisaria tirar o seu sustento, mas que agora... "- Se abre o caixão e te abriga, / lençol que não tiveste em vida; - Se abre o chão e te fecha, / dando-te agora cama e coberta; / - Se abre o chão e te envolve / como mulher com quem se dorme".
No trecho 9 - o retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife - novamente Severino fala com o leitor, por um lado afirmando não ter sentido diferença "entre o Agreste e a Caatinga, e entre a Caatinga e aqui a Mata" e, por outro, lado identificando-se mais com o rio ("vive a fugir de remansos, / a que a paisagem o convida, / com medo de se deter, / grande que seja a fadiga"), chegar logo "ao fim dessa ladainha", ao Recife, "derradeira ave-maria do rosário, derradeira invocação da ladainha, / Recife, onde o rio some / e essa minha viagem se finda..."
2ª Parte
O retirante na cidade grande: a sucessão de mortes x a explosão da vida.
A partir do trecho 10 - Chegando ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros - Severino inicia seu trabalho pela cidade grande.
Dois coveiros - um do bairro de Casa Amarela e outro do bairro de Santo Amaro - conversam, o primeiro querendo deixar seu cemitério, cujo vaivém de mortos compara com " paradas de ônibus, com filas de mais de cem", e o segundo comparando o setor do cemitério onde trabalha com "a estação de trens: diversas vezes por dia chega o comboio de alguém".
Enquanto isso, afirma o coveiro de Santo Amaro, "As avenidas do centro / onde se enterram os ricos, / são como porto do mar: / não é ali muito serviço: no máximo um transatlântico / chega ali cada dia / com muita pompa, protocolo / e ainda mais cenografia". A estes bairros (dentro do cemitério) de usineiros, políticos, banqueiros, industriais, etc, contrapõem-se, continua o coveiro de Santo Amaro, os bairros dos funcionários, dos jornalistas, dos escritores, dos artistas, dos bancários, etc,...
O coveiro de Casa Amarela reconhece um bairro dessa gente no cemitério do qual quer sair; "Raras as letras douradas, / raras também as gorjetas", e conta ao amigo que conseguiu do administrador mudar de bairro, não de cemitério.
Então, o interlocutor comenta: "Passas para o dos operários, / deixas o dos pobres vários; / melhor, não são tão contagiosos, / e são muito menos numerosos".
A conversa prossegue com ambos os coveiros falando dos indigentes, "da gente retirante / que vem do sertão tão longe... Não podem continuar, / pois tem pela frente o mar. / Não tem onde trabalhar / e muito menos onde morar... essa gente do sertão / que desce para o litoral, sem razão, fica vivendo no meio da lama, / comendo os siris que apanha; / Pois, bem: quando sua morte chega / temos que enterrá-los em terra seca..."e com a sugestão de que morressem no rio, facilitando o trabalho deles. Enfim, a conclusão a que chegam é de que o erro dos sertanejos é virem seguindo "seu próprio enterro".
Severino, após ouvir tais palavras, aprende que "nessa viagem que eu fazia, / sem saber desde o Sertão, / meu próprio enterro eu seguia..." e encontra como solução apressar a própria morte, como o coveiro a descrevera / jogar-se no Capibaribe "que rio, aqui no Recife, / não seca, vai toda vida..."(trecho 11 - o retirante aproxima-se de um dos cais do Capibaribe).
Do trecho 12 ao 13 ocorre o encontro de Severino com Seu José, um mestre carpina que defende a vida, "mesmo que em retalhos, a vida de cada dia, que cada dia deve ser conquistada". Após o trecho 12 (Aproxima-se do retirante um morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio) há a notícia do nascimento de uma criança, filha do carpinteiro (trecho 13 - Uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá), e, no trecho 14 (Aparecem e se aproximam da casa do homem vizinhos, amigos, duas ciganas, etc), 15 (Começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém nascido), 16 (Falam as duas ciganas que tinham aparecido com os vizinhos) e 17 (Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc) a celebração do evento transcorre.
Os presentes humildes dos amigos, os prognósticos das ciganas vindas dos "Egitos" (a primeira vendo a criança como um futuro pescador e a segunda como um operário, alguém de condição e de moradia melhores), as falas dos presentes, reconhecendo que "o menino magro / de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher" e poeticamente o descrevendo ("é belo como o coqueiro / que vence a areia marinha...", "é tão belo como um sim / numa sala negativa",... "belo porque é uma porta / abrindo-se em mais saídas...", "belo porque corrompe / com sangue novo de anemia..." criam atmosfera do trecho 18, que finaliza o poema.
Nele - O carpina fala com o retirante que esteve fora, sem tomar parte em nada"- o pai do menino recém-nascido mostra o filho como fato-exemplo de que a vida deve ser celebrada ela própria, que a sua explosão - que assemelha ao nascimento de mais um pobre o renascimento da existência - pode inverter a seqüência de sombras em que mergulhara o retirante, e com ele o leitor, e substituí-la por outra resposta: "E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há pouco / em nova vida explodida; / mesmo quando é assim pequena / a explosão, como a ocorrida; / mesmo quando é a explosão / como a de há pouco, franzina; / mesmo quando é a explosão / de uma vida severina".
Morte e Vida Severina - Personagens
Além do mestre carpinteiro que representa a possibilidade de esperança na vida através da própria vida se fazendo e refazendo, o protagonista da obra, seu personagem modelar de quem o mestre constitui a "outra face" é o retirante personificado por Severino. Vamos, então, analisá-lo.
No primeiro trecho, ele se apresenta aos leitores - pessoas letradas e pertencentes ao mundo urbano - chamando-as de "Vossa Senhorias" e inicialmente procurando distinguir-se enquanto indivíduo.
Para fazê-lo, detalha ao máximo o seu nome - "é o Severino / da Maria do Zacarias, / lá da Serra da Costela, / limites da Paraíba". Entretanto, isso ainda diz pouco: "Se ao menos mais cinco havia / com o nome de Severino / filhos de tantas Marias / Mulheres de outros tantos, / já finados, Zacarias, / vivendo na mesma Serra / magra e ossuda em que eu vivia".
Neste trecho que inicia o auto, um de seus eixos temáticos fundamentais pode ser notado com facilidade: o anonimato de uma gente cuja vida só tem a morte como horizonte - "E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina, / que é a morte de quem se morre / de velhice antes dos trinta, / de emboscada antes dos vinte, / de fome um pouco por dia / de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / e até gente não nascida".
Repare que a pluralização do nome próprio Severino transforma-o em nome comum, nome que simboliza a violência e a miséria de vidas tão iguais quanto as mortes... "esta morte severina".
Agora, a palavra torna-se um adjetivo que caracteriza a precariedade da existência dos seres oprimidos pela seca e pelo conservadorismo de um sistema sócio-econômico-político opressor, de estrutura anacronicamente reacionária (os severinos como descendentes do Coronel Zacarias, o "mais antigo senhor desta sesmaria", e de mães chamadas Marias...)
A sina, o destino, a fatalidade de "abrandar pedras", de "tentar despertar terra sempre mais extinta" constituiu outro elemento temático que persiste ao longo de todo o texto, cujo conteúdo de denúncia social fica nítido no enredo, na caraterização do personagem principal e modelar do livro, Severino, e, como veremos, no tempos/espaço e na linguagem da obra.
Morte e Vida Severina - Tempo / espaço
Os aspectos temporais espaciais de Morte e vida severina entrelaçam-se a características da obra estudadas em seu enredo e através de seu protagonista, Severino. Enquanto o tempo é indeterminado cronologicamente, dando-nos a situação da seca como único marcador, que parece eternizá-lo, o espaço possui um movimento de deslocamento mais simbólico que real, embora aconteça de fato.
Isto porque a travessia do retirante do Agreste para a Caatinga, da Caatinga para a Zona da Mata, da Zona da Mata para o Recife, não apenas não muda as suas perspectivas de vida, mas, ao contrário, apenas intensifica o acúmulo de mortes que o leva a pensar em jogar-se no rio e apressar a própria morte.
Assim, tanto tempo quanto o espaço intensificam o caráter de denúncia social do texto, o qual , pela simbologia da vida representada via nascimento de uma criança, e via significado desse nascimento de acordo com as palavras do mestre carpina, conjuga a denúncia de que reveste com um lirismo que não chega nem pretende chegar a seu redentor, reconfortante, mas que colore de tons substantivamente poéticos a possibilidade de esperanças presente em Morte e vida severina.
Morte e Vida Severina - Linguagem
Conhecido como "engenheiro da palavra" por sua poesia precisa, substantiva, elíptica, mais plástica que musical, João Cabral de Melo Neto surpreendeu alguns críticos ao conseguir conjugar tais características, que mantêm na obra que lemos, com outros recursos que o tornam mais "legível" e conseqüentemente menos "hermético". Tais recursos estão vivos na linguagem concisa mas fluída e permeada de expressões e musicalidade popular de Morte e vida severina, na sedução de sua leitura pelos fortes traços orais, pelas rimas e repetições que não enfraquecem, mas, ao contrário, intensificam a tensão dramática, e principalmente no lirismo que soletra a vida e a celebra, ao mesmo tempo em que denuncia de forma implacável os fatores que a impedem de expandir-se: a seca e os arbítrios, os desmandos, os responsáveis por ela e por suas conseqüências.
Vamos terminar este trabalho com a opinião de um estudioso e mais um fragmento do texto, para lermos, relermos e reconhecermos sua intensidade enquanto texto literário e enquanto peça teatral.
“A visão plástica (...) é tão predominante em João Cabral de Melo Neto que acarreta o quase amortecimento do lado musical (...). Dessa forma, sua poesia pode parecer - ante uma tradição que tem timbrado em requintar o lado musical (e/ou rítmico e/ou fônico) - algumas vezes "dura" aos menos avisados ou mesmo aos pseudo-avisados (...). E não estranhará que tenha sido a consciência disso que o tenha levado, quando quer obter efeitos rítmicos mais definidos, aos metros tradicionais da redondilha e do romance. Mas a repulsa aos apoios fonéticos não necessários à sua visão poética é tal, que raríssimos são os casos de rimas, salvo as toantes, e estas são freqüentes sobretudo como "molde" ou "fôrma" para a obtenção de uma certa fixidez poemática (...). Chega à situação de um sábio que esgotou toda a teoria neutra de sua ciência, viu que por sua pretensa neutralidade era uma ciência a serviço, viu mais - que a serviço de uma causa que não era a da ciência mesma e se perguntou qual seria, pois, aquela ciência sincera, que se pudesse pôr a serviço do homem...” Antônio Houaiss, obra citada
- Severino, retirante,
deixa agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponta e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
(Trecho 18 - o carpina fala o retirante que esteve de fora sem tomar parte me nada).
*Emília Amaral
Material do COC – CD-ROOM

Resumo 2 - Morte e vida Severina - João Cabral de Melo Neto

A dura trajetória do imigrante nordestino

Para entender Morte e Vida Severina (1954-5) é interessante prestar atenção em seu título e subtítulo, “Auto de Natal Pernambucano”. O primeiro termo que pode ser analisado é “auto”, que liga a obra ao teatro da Idade Média, principalmente o ibérico, não só pelo uso de redondilhas e da rima espanhola (que se estabelece apenas com a última vogal tônica), mas também pela fusão de elementos contemporâneos e medievais, esquema que já fora utilizado em Gil Vicente, principalmente no Auto da Barca do Inferno (1517).
A próxima expressão é “de Natal”. Poderia reforçar as características do termo anterior, anunciando uma temática religiosa na obra. No entanto, João Cabral não teve preocupações religiosas aqui. A estrutura serve apenas para veicular sua visão crítica do mundo, num esquema semelhante aos autos de Gil Vicente, que não eram essencialmente preocupados com religião. Na verdade, a expressão em questão está mais ligada ao seu final, em que há o nascimento de uma criança.
O adjetivo pátrio “Pernambucano” põe em foco o fato de o ambiente em que se passa a história, além dos problemas, ser desse estado. Além disso, muito da obra foi retirado do folclore pernambucano. Não se deve esquecer que João Cabral, ao receber o pedido de Maria Clara Machado para escrever uma peça a ser encenada no Natal, sentiu dificuldade na tarefa – era virgem nesse gênero – que só foi superada depois de estudar a cultura popular de seus conterrâneos.
Todos esses elementos vêm da análise do subtítulo. O título, por sua vez, oferece mais aspectos importantes. Primeiro, o seu adjetivo, “Severina”, que vem de um substantivo próprio. João Cabral inova sobre a língua ao fazer o caminho inverso. É comum adjetivos virarem nomes, como o próprio “Severino”, que vem de “severo” (difícil, árduo, rígido). Se se juntar a idéia de que Severino e Severina são nomes muito comuns no Nordeste, pode-se entender que se está falando de uma vida (ou morte) tipicamente nordestina, porque é difícil, rígida, severa.
No entanto, o aspecto mais interessante é a inversão que se estabelece entre os substantivos “morte” e “vida”. O normal seria a vida vir primeiro. Mas a mudança de posição que se estabelece no título índica o estado crítico em que se encontra o Nordeste, com a morte vindo em primeiro lugar, ou seja, com presença mais marcante, intensa. Não é à toa que, na distribuição das 18 cenas da peça, 12 foram dedicadas à morte, o que cria uma proporção de 2:1 entre morte e vida. A morte é o dobro da vida.
E é para fugir a essa dificuldade que Severino se torna retirante, conforme anuncia na primeira cena, em que se apresenta de forma bastante curiosa: quanto mais tenta especificar sua identidade, mais impreciso se torna. O resultado é que se torna extremamente genérico – é um personagem tipo, a representar o retirante nordestino.
Outro aspecto interessante na apresentação é a caracterização que se faz da vida Severina em 29 versos, uma referência precisa, matemática da expectativa de vida do sertanejo na época do poema: 29 anos. A exigüidade da existência desse povo foi um dos principais elementos que inspirou João Cabral a escrever tal obra.
Ainda assim, Severino encontra pelo caminho morte, já a partir da segunda cena. Em busca de melhores condições de vida, parte, pois, para Recife, utilizando o Rio Capibaribe como guia (assim como a estrela tinha sido para os três reis magos). No caminho, depara-se com o enterro de um Severino lavrador. A informação que lhe é dada de como se deu tal morte concilia a lucidez crítica e o talento poético. Comunicam que o lavrador foi morto porque uma ave-bala o pegou. Há aqui a menção aos conflitos de terra. Existe, também, um toque surrealista ao se mencionar o algoz como “ave-bala” e pouco depois de “pássara”. Além disso, esse trecho, “Ó Irmão das Almas”, é inspirado num poema espanhol que o autor por certo deve ter conhecido quando exerceu serviço diplomático naquele país.
O tema da morte é repetido, na terceira cena, na imagem do rio que secou. Severino, assim, preocupa-se, pois perde o seu guia. No entanto, sua atenção é distraída por uma cantoria. É o gancho para a quarta cena, em que há carpideiras – mulheres que ganham a vida chorando por quem nem conhecem – e outras pessoas “cantando excelências” para um defunto. O esquema dessa cena é também retirado de um poema da literatura espanhola.
Não se deve esquecer que a Cena 4 tem uma estrutura que imita um espelho. O discurso que é feito para o defunto dentro da casa, com recomendações até sobre o que fazer, já que se encaminha para o reino dos mortos, é repetido por um homem que fica à porta no momento exato em que Severino passa. As “excelências” funcionariam, portanto, também como uma profecia ao protagonista.
Cansado de só encontrar morte pelo caminho, Severino, no monólogo que é a Cena 5, pensa em parar sua viagem e conseguir trabalho. É o instante da célebre Cena 6, quando dialoga com uma mulher na janela. Aqui novamente ocorre uma inspiração retirada da literatura espanhola que se misturará ao contexto pernambucano. Marcante nessa cena é a diferença entre oferta e procura. Severino sabe tirar vida da terra, mas naquela região seca não há o que tirar. O único meio de vida, ironicamente, seria trabalhar nos roçados da morte, com faz a mulher na janela, que é rezadora.
Continua, pois, sua viagem, quando alcança a Zona da Mata (Cena 7), em que dominam o verde e a umidade das plantações. Severino pensa em ficar, pois imagina que num local onde não exista seca não exista também vida severina. Infelizmente, não percebeu que o problema não é a seca, mas mais precisamente a estrutura latifundiária.
Sua fantasia desmoronou-se na antológica Cena 8, quando presencia o enterro de um trabalhador de eito (roça), todo vazado numa amargura cortante e extremamente irônica, típica de quem perdeu tudo. Nesse trecho há uma alusão, também irônica, à reforma agrária: a cova é a terra que aquele lavrador tanto queria ver dividida.
Frustrado, apressa-se em direção de Recife (Cena 9), que alcança, descansando junto ao muro branco de um cemitério (mais uma imagem da morte!), quando ouve a conversa de dois coveiros (Cena 10), toda num andamento que imita a prosa. Nesse instante é que ouve uma realidade dolorosa: a de que todos os retirantes vinham acompanhando o próprio enterro, ou seja, estavam apenas deixando de morrer no sertão para morrer no litoral. Em outras palavras: não melhorariam a qualidade de vida.
Desestimulado, o protagonista chega-se à margem do rio, um indício de que está a fim de apressar o próprio enterro, ou seja, pôr término à sua existência (Cena 11). É nessa hora que encontra o Mestre Carpina (carpinteiro) José (personagem que faz lembrar o pai de Jesus). Faz-lhe a famosa pergunta: não seria melhor saltar fora da ponte e da vida?
Antes que o mestre responda, começam as seis cenas que são chamadas de Presépio, pois celebram o nascimento divino, anunciado por uma mulher que informa que o filho do carpina saltou para dentro da vida. Coincidência ou não, é uma resposta à pergunta de Severino. A primeira cena pode ser chamada “Anunciação”, pois é o momento em que uma mulher comunica ao mestre carpina o nascimento do menino. É uma cena calcada no folclore pernambucano.
A cena seguinte é a em que se deixa claro o nascimento dessa criança como divino, pois a natureza parece ter-se preparado para recebê-la, já que a maré havia espalhado sargaço, uma alga de caráter ácido e que serviu para desinfetar o mangue. Além disso, o vento havia levado para longe o cheiro ruim e a água, antes barrenta, ficou cristalina, refletindo as estrelas.
Em seguida, há a oferenda de presentes ao recém nascido, numa referência aos presentes dos reis magos. A diferença é que os vizinhos dão não tem riqueza material: jornal, frutas, elementos tirados da pobreza.
A Cena 4 apresenta duas personagens típicas dos autos medievais, que são as duas ciganas. No entanto, ao invés de uma fazer uma previsão negativa e a outra positiva, em Morte e Vida Severina ambas fazem previsões negativas, como o menino aprender a andar e a brincar com os animais, ficar sujo de lama ou de graxa e se mudar de um mocambo para o outro.
A penúltima cena introduz a temática da beleza do menino, que suplanta seu caráter raquítico e doentio, pois se baseia no fato de dentro dele bater a máquina da vida. É alimento mais que suficiente para o encerramento da peça, em que volta à ação o mestre carpina, agora com a função de responder a pergunta. Seu raciocínio é o de que a própria vida, por meio da criança, havia respondido com sua capacidade de suplantar todas as dificuldades.
Não se deve esquecer, ainda assim, que o final do “Auto de Natal Pernambucano” não é simplista como seus modelos medievais. Pode ser entendido como ambíguo, na medida em que tem um aspecto positivo, que é a capacidade de resistência da vida, mas que também se mostra negativo, na medida em que essa vida é severina. Pode-se também entender o desfecho como uma mensagem de esperança, mas com o pé no chão, ou seja, sem se esquecer das dificuldades desse mundo.